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Os Campos de Concentração em A Lista de Schindler

A fidelidade cenográfica e narrativa de A Lista de Schindler a respeito dos Campos de Concentração fizeram desta produção um ótimo objeto de estudo sobre a Alemanha Nazista.

Os Campos de Concentração não foram obra exclusiva alemã, durante os anos que Adolf Hitler ficou no poder, pois alguns outros países também ergueram esta tática. O Reino Unido, por exemplo, no final século XIX, construiu Campos para mulheres, negros e crianças nos países da África do Sul que estavam sendo colonizados por eles. Alguns foram construídos no Brasil, também durante a Segunda Guerra Mundial, onde japoneses, italianos e, principalmente, alemães foram confinados. Logo, a construção de locais para o confinamento de indivíduos vistos como os inimigos nacionais não foi prática exclusiva alemã.

No ano de 1933, o primeiro Campo de Concentração foi erguido na cidade de Dachau, na Alemanha. Em 1935, as Leis de Nuremberg foram sancionadas. Estas leis pregavam a segregação racial entre judeus e arianos – raça pura -, com o discurso de que a raça alemã não deveria se misturar a outra e que, assim, se impediria que imperfeições atingissem o povo alemão. Com o passar do tempo, o racismo e preconceito aumentaram de caráter, levando à perseguição e eliminação não apenas de judeus, mas de ciganos, LGBTs, negros e comunistas. A polícia nazista, conhecida como Gestapo, era a principal responsável pela perseguição destes grupos. Além da perseguição, a política dos nazistas começou a incluir os Campos de Extermínio – a “Solução Final” -, causando a eliminação em massa destes povos, mais conhecida como Holocausto.

Os primeiros a serem construídos em terras polonesas datam de 1940, em locais que foram invadidos pelos alemães. De acordo com dados históricos, existiam três Campos maiores – Auschwitz I, Auschwitz II e Auschwitz III -, sendo auxiliados por trinta e nove menores.

Os três maiores receberam o nome de Auschwitz, ou Auschwitz-Birkenau, porque ficavam localizados nas cidades de Auschwitz e Birkenau, próximas à capital da Polônia. Foi exatamente nestes que o Holocausto aconteceu, mesmo que não tenham sido criados “apenas” para o extermínio – cada um deles tinha outras funções que, como mencionado, eram auxiliadas pelos outros 39 Campos menores.

O primeiro deles, construído em 1940, era conhecido como Auschwitz I. O centro administrativo ficava localizado ali e é exatamente por isso que a placa com a famosa frase “O trabalho liberta” esteve presente neste primeiro Campo. Os prisioneiros eram submetidos a trabalhos forçados e, além do mais, foi em Auschwitz I que a primeira câmara de gás foi testada, causando a morte de 850 pessoas.

Já o segundo foi construído em Birkenau em 1941 e tinha como objetivo principal o extermínio. Auschwitz II foi o primeiro Campo construído com a finalidade do extermínio, visto que antes disto eles rodeavam apenas na ideia do aprisionamento e do trabalhoEste é, até hoje, o mais conhecido e o que se sabe que possuiu o maior número de mortes. Devido ao seu principal objetivo ser o do extermínio, ele continha quatro crematórios e quatro câmaras de gás, cada um podendo receber, em média, 2.500 pessoas por vez. De acordo com dados históricos, morreram aproximadamente um milhão de judeus e 19 mil ciganos. 

O terceiro Campo de Concentração da Polônia, construído em 1942, tinha como principal foco o trabalho escravo para a empresa conhecida como IG Farben, responsável pelo monopólio da indústria química durante a ditadura nazista de Hitler (1937-1945). Em relação aos outros trinta e nove, os objetivos estavam ligados às produções militar, metalúrgica e mineradora.

Em A Lista de Schindler fica visível como se dava o funcionamento de um Campo de Concentração; e não só em relação às vias artísticas de que o filme dispôs, que conseguiram reproduzir com fidelidade as estruturas destes, mas também através das vias narrativas. Obviamente, o foco principal é mostrar como Oskar Schindler (Liam Neeson) conseguiu salvar mais de mil judeus do Holocausto; no entanto, um segundo foco inevitável foi contar como era o funcionamento, principalmente no dia-a-dia, de um.

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Ao mostrar esse dia-a-dia, em várias cenas fez-se bem claro o discurso de ódio que permeava a ideologia nazista, a começar pela forma como os prisioneiros eram tratados pelo oficial da SS, Amon Göth (Ralph Fiennes). Ele fazia questão de utilizar palavras de ódio para referir-se aos presos, de forma que o filme dá um foco a mais na maneira bárbara como ele tratava os judeus. Fica nítido para o espectador que existe ódio e prazer em humilhar e matar os grupos vistos como minorias sociais – principalmente pela questão de que o oficial não os vê como pessoas, mas sim como bichos da pior espécie.

Em uma das cenas, Göth pega uma arma e mira na cabeça de um judeu como uma forma de mostrar o que aconteceria com outros, caso fizessem alguma coisa não desejada pelos nazistas. Fica bastante claro, ao longo da cena, que o ato não partiu apenas da punição que era aplicada a quem representasse atos não permitidos; o ato vinha, principalmente, do ódio, do nojo e da forma como ele se sentia superior por ser alemão. Isto era muito comum nestes Campos de Concentração: a barbárie feita não partia da situação protocolar, mas partia do ódio e do desejo de exterminar a quem fosse visto como inferior. A Lista de Schindler deixa esta questão evidente através do personagem de Fiennes.

Diferentemente de outras produções que também retrataram o período da Alemanha Nazista, a obra de Spielberg não deu apenas foco às câmaras de gás, mas sim em mostrar todas as outras barbaridades cometidas aos judeus, negros, LGBT e comunistas antes de serem enviados ao Campo de Auschwitz II e lá serem submetidos à maior barbárie da história do século XX. Por exemplo, em O Menino do Pijama Listrado (2008), apesar do Campo de Concentração aparecer em alguns momentos da produção cinematográfica, o foco narrativo não é este, mas sim mostrar a amizade entre dois garotos, um alemão e o outro judeu. Isso não significa que essas narrativas históricas deixaram de mostrar as barbáries que foram cometidas pelos nazistas durante a Segunda Guerra, apenas que o foco principal não foi esse.

A Lista de Schindler é um dos poucos filmes que falam a respeito do Nazismo e um dos primeiros a retratar com fidelidade a vida dentro de um Campo de Concentração nazista. Com isso, a produção de 1993 serve até hoje como um objeto de estudo rico a respeito do tema.

 

 

Fonte: InfoEscola
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1 resposta »

  1. Nanna, parabéns pelo belíssimo texto analítico e que nos faz refletir o momento político/histórico que vivemos agora.

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