Séries

Crítica | O Mundo Sombrio de Sabrina

A sitcom dos anos 90 ganha uma nova narrativa, desta vez das mais macabras maneiras.

Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) é uma mestiça, filha de um pai bruxo e uma mãe mortal. Ao completar 16 anos, ela deve se preparar para sua iniciação, abrindo mão de sua liberdade e vida mortal para conseguir poder e dedicando o resto de sua vida para o Senhor das Trevas.

Diferentemente da sitcom, a abordagem aqui torna-se completamente sombria. Constantes rituais satânicos e a religião bruxa, tida como devoção ao inferno, é um contraste gritante com a Sabrina que costumávamos conhecer na série de 1996.

Ademais, a série é rondada de referências ao horror clássico. Desde a primeira cena, somos surpreendidos com o elenco assistindo à Noite dos Mortos-Vivos (1968), dirigido pelo pai do subgênero de zumbi George Romero.

A crítica maior que o enredo propõe está em mostrar como o poder feminino incomoda a masculinidade. O Diabo é retratado e ressaltado diversas vezes como um homem, sendo explicado, inclusive, pelas próprias personagens, ser esse o porquê de ele não dá-las liberdade.

No roteiro, há um contraste entre a vida mortal de Sabrina e o mundo bruxo. A garota não consegue se desprender da afeição pelas suas amizades e, muito menos, de seu namorado, Harvey (Ross Lynch), de quem precisa esconder o segredo de sua família.

As personagens secundárias são extremamente fortes e importantes para o desenvolvimento linear da história. Tia Zelda (Miranda Otto) e Tia Hilda (Lucy Davis) formam uma dupla dinâmica na criação da garota. São completamente opostas, sendo Zelda muito mais devota ao Senhor das Trevas e à Igreja da Noite do que sua irmã, o que causa conflitos constantes entre a compreensão das duas sobre as escolhas da sobrinha.

A participação de personagens como Padre Blackwood (Richard Coyle) e Madame Satã (Michelle Gomez) também são essenciais para que exista uma desconfiança do telespectador de que Sabrina está sempre sendo vigiada e guiada para o caminho das trevas, não importa o quanto lute contra isso.

A direção de arte tem um forte apelo para que se constitua todo o cenário sórdido da obra. O destaque para a cor vermelha em Sabrina faz com que a familiaridade figurinística seja mantida. Além disso, a transição do cabelo da garota de loiro para o branco platinado representa, também, a mudança em sua personalidade.

O uso da grande angular é constante, o que pode causar certo desconforto em seu público, visto que a lente não apenas desfoca em excesso, mas também distorce as imagens, deixando seus personagens um tanto quanto achatados em alguns takes. Entretanto, há particularidades de telespectadores que se apaixonaram pela fotografia, que enfatiza essa sombriedade do mundo oculto.

Apesar de sentirmos falta das falas sarcásticas de nosso adorado gato, Salem, a série não deixa a desejar e é justificável o corte das tentativas cômicas para que possa existir uma maior tensão entre os episódios. Sabrina é um dos maiores acertos do ano da Netflix, em especial se tratando de uma forma de fazer algo tão delicado quanto é se produzir um bom terror.

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