Filmes

Crítica | O Doutrinador

O anti-herói da HQ traz ao cinema nacional o gênero que, até agora, só conseguíamos suprir com Hollywood.

O-doutrinador-2

Gustavo Bonafé é responsável pela direção dessa estória de origem permeada de ação e violência. A adaptação tem menos comprometimento com uma fórmula juvenil e traz temas sérios num ambiente que lembra muito os moldes americanos, mas que funciona de forma original pelos temas intrinsecamente brasileiros, principalmente em face dos recentes acontecimentos políticos no país.

O Doutrinador pretende ser uma crítica à hipocrisia da classe política e, ao mesmo tempo, uma provocação ao espectador, que precisa a todo momento se perguntar se aquela é a única forma de se resolver o problema – quais mecanismos democráticos poderiam ser usados em seu lugar? O fato de que as agressões e lutas são sempre sangrentas e sonoramente agonizantes ajuda a criar essa dúvida e desconforto na cadeira do cinema.

tumblr_phst1nEilX1vctbbwo1_1280

Uma grande questão em produções nacionais, como, por exemplo, na série da Netflix 3%, é a necessidade de literalidade que faz com que muitos diálogos desajustados e pouco naturais tirem a seriedade de momentos-chave. Aqui, isso poderia ter sido evitado e teria contribuído para a consolidação do filme perante a sua audiência. Por outro lado, o roteiro não precisa apelar para as comuns cenas de sexo ou relacionamentos forçados, como muitas outras estórias (o casal dos protagonistas em Animais Fantásticos e Onde Habitam, de 2016, por exemplo).

As personagens secundárias funcionam bem, possuem peso narrativo e conseguem estabelecer vínculos significativos com o protagonista, o que ajuda na progressão da estória e abre espaço para muitas possibilidades futuras. Apesar de não se prolongar na relação pai e filha antes que o acidente aconteça, o filme joga bem com flashbacks e com a própria noção de amor paterno e materno para gerar tristeza e indignação no espectador.

01-1

Apesar de começar com fortes motivações, vai se tornando mais e mais difícil lembrar por que ele decidiu entrar nessa missão. Nesse sentido, o roteiro não resgatou o suficiente a importância da estória do início e usou facilitações narrativas em momentos que fazem parte da base de todo herói, como a escolha do seu uniforme e do seu nome – aqui, ambos são dados da forma mais rasa possível. Além disso, o tiro que atinge a menina no primeiro arco foi também deixado em aberto, mais como uma conveniência do que algo que gerasse um propósito em si (sim, a falta de atendimento ajudou a matá-la, mas a bala teve o seu papel e foi ignorada por um agente federal… ok).

O Doutrinador é um filme permeado de ação e críticas sociais que funciona muito bem misturando as referências ao conhecido e o toque brasileiro de originalidade. É um bom começo para uma possível franquia que siga expondo a dualidade da realidade e a torpeza da política nacional, mesmo que tenha mantido, até agora, um foco no alto escalão.

O Doutrinador está nos cinemas de todo o Brasil. Você pode conferir o trailer a seguir:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s