Séries

Análise | Olivia Pope

Como começar a entender a mulher que Comandou os Estados Unidos da América?

A última temporada de Scandal (2012-2018) foi ilustrativa de uma série de tendências que levaram Olivia Pope (Kerry Washington) a se tornar obcecada pelo poder que exercia sobre a Casa Branca.

KERRY WASHINGTON

O que se torna mais evidente, desde a segunda temporada, é o controle e a intimidação constantes que o pai tem sobre ela. Rowan Pope (Joe Morton), mesmo depois de “perder” o posto de Comando, dispõe de um intenso controle psicológico sobre Olivia, o que fica evidente a partir das cenas em que ele trata a filha como um criança – e, mais que isso, ela passa a se sentir como uma. Assim, estar na posição que deu a ele tanto poder dá a ela uma confiança pessoal que não tinha outro escape além de exercer poder sobre aquele que o fez durante toda a sua vida, forçosamente moldando seus caminhos e as suas necessidades. Esse embate de gigantes toma forma até o final homérico, quando Olivia dá espaço para a morte de Quinn (Katie Lowes), que só não acontece de fato por causa da construção da personagem de Morton, que ganha uma faceta humana – por falta de uma palavra melhor – nessa temporada final.

Não obstante, existem outros aspectos cruciais para esse comportamento egocêntrico, que perpassam também a dura educação que Olivia teve. São esses, essencialmente, gênero e raça. Como uma mulher negra ascende ao poder numa cidade permeada pela política patriarcal, machista e racista que caracteriza tantas sociedades ocidentais? Ela tem que ser, como o pai a lembra, sempre duas vezes melhor do que todos os outros. Se tornar o Comando do B613, então, é a consagração de todo o esforço para alcançar esse objetivo.

Temos, então, todos os diálogos e a intimidação que ela exerce sobre a Presidente Mellie Grant (Bellamy Young) com o propósito de fazê-la entender que, não importa onde esteja, ela jamais deixa de ser uma mulher aos olhos dos outros e, assim, pode ser subjugada. Toda a conversa de sororidade entre elas está pautada nessa percepção inequívoca de que homens e, acima de tudo, homens com poder se colocam acima de qualquer um que não seja seu igual. “Só existe eu e você”. Por isso tanto Cyrus Beene (Jeff Perry) quanto Jake Ballard (Scott Foley) vão tão longe para colocar as próprias ideias e aspirações acima do que poderia até mesmo ser melhor para os Estados Unidos, inclusive em termos de estabilidade: o poder é masculino – e não é somente em Washington.

BELLAMY YOUNG, KERRY WASHINGTON

Outro contato simbólico para entender Olivia é o crossover com How to Get Away With Murder (2014-), no qual existe um contraste gritante entre ela e Annalise Keating (Viola Davis) que causa tensões nesse relacionamento. Sendo mulheres de diferentes experiências e, principalmente, com metas diferentes, elas têm problemas em lidar com o afastamento da realidade de gênero e raça de uma – com Olivia frequentando os mais altos círculos sendo algo pedante aos olhos de Annalise – ou os pecados do passado da outra.

No fim das contas, o viés feminista foi o que mais pesou na última temporada de Scandal. Desde que Olivia se sentiu absolutamente sozinha no cárcere do sequestro e viu que precisava cuidar de si mesma sozinha até o momento em que ela se torna o posto mais alto da organização que comanda os Estados Unidos, ela precisa lidar com o fato de ser uma mulher que sofre tentativas de descreditação a todo momento. Com Mellie, ela sente uma ferocidade incontrolável de deixar para trás os homens que tentaram definir a sua vida e, disso, resultam muitos diálogos que são fundamentalmente feministas.

Scandal foi uma série de sucesso que começou bem, atingiu o ápice, se perdeu e, no fim, terminou com um pouco de pressa; ainda assim, é uma fonte rica de questionamentos e uma boa opção para resolver casos, tratar de política e praticar teorias da conspiração. Olivia Pope, enquanto personagem central, trouxe grande profundidade à trama e uma consistência compreensível. Ficam, assim, 7 temporadas de qualidade para os curiosos.

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