Filmes

O Triste e Atual Brasil de Batismo de Sangue

O excelente, forte e visceral filme de Helvécio Ratton mostra o quão importante é observar os horrores do passado, para não repeti-los no presente.

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O mundo, para o bem e para o mal, é extremamente cíclico. Momentos de extrema alegria e de extremo atraso vem e vão. Em 2018, vivemos um Brasil cheio de ódio, fruto de uma realidade cheia de ódio, onde a extrema direita busca ganhar força e expandir sua dominação baseada em mentiras, falácias, ilusões e o próprio medo, o que se manifesta em um discurso de ódio e uma onda de fascismo e violência. Nesses momentos de crise, pessoas ficam cegas de medo e  líderes conseguem ascender politicamente com falas rasas, simplórias e, até por isso, atraentes, já que facilmente iludem uma população desesperada e manipulada, que se vê soltando preconceitos escondidos dentro de si.

Apoios secretos das elites e dos estrangeiros tomam participação; demonizações são usadas para criar bodes expiatórios que aceleram os planos; a grande mídia apoia e se cala; mentiras são transformadas em verdades cheias de promessas falsas; grupos são perseguidos e julgados; o pior e o mais covarde das pessoas vem à tona; os discursos de ódio ganham forma; liberdades e direitos são tirados; tudo se vai, permitindo que excessos dos mais perversos e violentos sejam cometidos e, então, golpes são executados – ferindo a democracia, destruindo e tirando muitas vidas. A partir disso, surge a luta e a resistência, porque alguns não se calam diante da barbárie e tentam combatê-la.

Esse cenário é tão real na Ditadura Civil-Militar do pós-64 quanto no Brasil de 2018 pós-impeachment, com a  ascensão de um líder fascista, anti–democrático e autoritário, construído em cima de farsas e discursos de ódio nos quais discrimina minorias, espalha misoginia e exalta torturadores e um regime de lógica golpista, formada pelo mal e pela violência. Esse é, também, o cenário do filme Batismo de Sangue.

O diretor mineiro Helvécio Ratton tem uma carreira extremamente diversas e rica, mas nunca abandonou nem o seu passado como militante de esquerda, tendo lutado pessoalmente contra a ditadura, e nem os seus ideais. Dirigiu filmes infantis singelos e belos com um subtexto muito sutil de valorização da cultura brasileira e antagônicos à lógica consumista, colonizadora e capitalista – temos o belo Menino Maluquinho: O Filme, de 1995; A Dança dos Bonecos, de 1986; Pequenas Histórias, de 2007; e O Segredo dos Diamantes, de 2014. Traz também a representatividade negra e da periferia de Minas Gerais (Uma Onda no Ar, de 2002), insere uma história de Eça de Queiroz em um cenário mineiro de época (Amor & Cia, de 1998) e possui documentários que vão desde filmes–denuncia até a retratação da cultura mineira (como o excelente Em Nome da Razão, de 1979, e O Mineiro e o Queijo, de 2011).

Ele pode ser diversificado em gêneros, mas é sempre muito brasileiro, mineiro e preocupado com a cultura e a política do seu país – nunca esquecendo o seu ativismo e militância; assim pode ser visto o cinema de Helvécio. Ele próprio, que experimentou o período da Ditadura Civil-Militar, participou do Movimento Estudantil e militou ativamente até ser exilado no final da década de 70 – quando, inclusive, conheceu rapidamente, no Chile, o Frei Tito, após a fama devido à sua história trágica e experiências terríveis ser o primeiro caso de repercussão internacional dos horrores do regime instaurado no Brasil. Após ler “Batismo de Sangue”, do Frei Betto,  Helvécio ficou profundamente tocado.

O cineasta, então, achou necessário que esse tema fosse abordado de forma forte, porque ele vinha observando um certo relativismo em torno daqueles “anos de chumbo” que ele passou, como se a ditadura não tivesse sido “tão ruim assim” e como se a história estivesse se perdendo – muito por causa de uma cortina de fumaça que se formou em torno do assunto, fazendo com quem ele nunca fosse tocado e acertado historicamente como merecia. Helvécio, então, fez um proposital mergulho  nos horrores desse período tão violento.

Helvécio Ratton na produção de O Segredo dos Diamantes, de 2014.

É uma pena, entretanto, o cinema nacional estar tão longe do alcance dos próprios brasileiros, impedindo que eles conheçam a fundo a sua própria história e os seus próprios horrores de uma forma massiva, necessária e popular. Mesmo com obras desta natureza e os horrores tão evidentes, o que se cria são falsas lógicas e falsas verdades ao redor desse período, impedindo que a verdade fique clara para todos, levando a repetições tão equivocadas que, somadas com uma falta de acertos históricos de nossos períodos mais sombrios, atraem esse terror cíclico.

O filme, baseado no já citado livro homônimo de autoria do Frei Betto (no filme interpretado por Daniel de Oliveira), conta a história dos freis dominicanos – incluindo Betto, Tito (Caio Blat) e outros – que, seguindo ideais cristãos com uma leitura progressista e humanista da Bíblia, passaram a apoiar logisticamente e politicamente a resistência contra a Ditadura Civil-Militar, principalmente a que estava ligada ao militante de esquerda Carlos Maringhella (Marku Ribas), inimigo número 1 do regime.

A produção acompanha desde o período em que eles são presos e torturados sob o comando do sádico e brutal Delegado Fleury (Cássio Gabus Mendes) até o exílio e posterior suicídio de Tito, que não aguenta o tormento de viver com as lembranças de toda a tortura e violência que passou. Além do isolamento da maioria da Igreja e do grave estado em que a sua saúde mental se encontrava após as torturas físicas e psicológicas, vemos o julgamento, a paranoia adquirida, a culpa incutida na sua cabeça e a noção de confrontar o pior existente no ser humano.

O didatismo do roteiro de Helvécio Ratton e Dani Patarra incomoda muitas vezes, principalmente nos diálogos, mas não diminui a fiscalidade da obra. De algum jeito, por mais que destoe,  o caráter didático e direto do filme sobre o período combinam-se, trazendo uma harmonia à obra como um todo.

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O longa também consegue apresentar-se como um acertadíssimo estudo de gênero, alternando entre o drama e o policial, com uma condução muito acertada de Ratton, que alterna entre torturas, assassinatos e perseguição, tudo feito de maneira muito tensa e cenas delicadas e sensíveis demais, típicas da filmografia do diretor e da sua personalidade. O expectador experimenta um contato bem claro com os limites da alma humana; o sentimento de terror e de passado são invocados pela fotografia excelente do de Lauro Escorel, que toma forma principalmente nas cenas de tortura, como no confronto “papal” de Fleury com Tito ou quando o frei chega ao seu trágico destino.

O elenco é um show à parte. Um Caio Blat maravilhoso dá vida, em uma atuação sensível e tocante, ao Frei Tito, indo a fundo principalmente nos momentos de horror que afligem a vida dessa pobre alma. O sempre espetacular Daniel de Oliveira traz sensibilidade e ternura vivas ao Frei Betto, enquanto Murilo Grossi retrata mais uma faceta desprezível e reacionária do regime. Em contraste, temos um Cássio Gabus Mendes monstruoso, assustador e que, de forma animalesca no pior dos sentidos, personifica todo o sadismo e perversidade de um dos torturadores mais desprezíveis e sanguinários do regime militar. Sua interpretação pode soar exagerada em muitos momentos, mas está no tom perfeito para casar com a proposta de sua personagem.

Batismo de Sangue não é didático apenas nas cenas de tortura, mas impressiona também por uma reconstituição de época excelente, trabalhado numa direção de arte detalhista que faz o espectador sentir-se mergulhado naquele período. Ademais, o horror da violência não está apenas nas cenas de tortura, difíceis de digerir; está também na violência cínica e verbal que é encontrada, como apresenta-se pela figura de um cardeal da alta cúpula da Igreja Católica que apoia o golpe da forma mais cínica possível e culpabiliza os freis pelas suas próprias torturas em uma nova forma de tortura, arrancando um sorriso desprezível no Delegado Fleury e chocando as vítimas.

O que mais impressiona em Batismo de Sangue é o retrato cru e violento, mas sempre necessário – por mais explícito e doloroso, nunca é gratuito nas suas chocantes e fortíssimas sequências de cenas de tortura que são dirigidas brilhantemente. Helvécio não humaniza a tortura ou o torturador, e nem busca algo glamourizado ou que normalize a violência; pelo contrário, sua intenção é que fique claro o horror daquela ação e desses momentos tão odiosos. E isso ele consegue. De forma exímia. Helvécio não busca a humanidade nos torturadores porque ele sabe que humanos são incapazes de cometer esse tipo de atrocidades. Ele está retratando até o pior do lado mais sombrio, doente, violento, perverso e reacionário da sociedade que toma forma na violência do Estado.

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