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Sessão Piscologia |Cisne Negro

A produção norte-americana de Darren Aronofsky trilha sobre as águas profundas da psicose. 

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Cisne Negro (2010) foi um terror psicológico dirigido por Darren Aronofsky, onde o fator primordial da obra é apresentar um contexto de uma mulher adulta, que ainda vive sobre o teto da mãe e é controlada em todos os aspectos pela mesma. Nina Sayers (Natalie Portman) é uma personagem que navega sobre as águas da estrutura clínica contextualizada por Freud, a psicose. 

Na psicose, há uma prevalência primordial do princípio do prazer em relação ao princípio de realidade, por isso as funções do ego acabam sendo prejudicadas dando voz a um mundo que pertence somente a ele. Freud contextualizou três estruturas psíquicas: o idego e superego. O id é a única destas que é inata, ou seja, o sujeito já nasce com esta estrutura; a partir dela, surgem as outras duas.  

Ao falar a respeito da estrutura psíquica inata ao ser humano, o pai da psicanálise trouxe o id como exigente, repleto de desejos e pulsões, e que não pode ser influenciado pela realidade, provando que é movido pelo princípio do prazer. Em 1924, Freud trouxe a psicose como um elemento de distanciamento do ego, tendo o predomínio do id sobre o ego do indivíduo. Trocando em miúdos, temos o distanciamento do ego para além da realidade que está sendo apresentada pelo indivíduo e depois, como uma forma de reparar o dano, haverá o restabelecimento do sujeito com a realidade que o cerca. No entanto, este fenômeno acontecerá pelas vias do id 

Para uma compreensão total da narrativa de Cisne Negro é necessário perceber as ligações entre a forma como Nina percebe e encara o mundo à sua volta e a psicose. Não apenas como uma forma de rotular a personagem como psicótica, mas para compreender melhor o psiquismo dela. 

Nina, apesar de ser uma mulher adulta, ainda percebe e vê o mundo com o olhar de sua mãe, mostrando ao telespectador a simbiótica relação entre as duas. Nina depende tanto emocional quanto psicologicamente de sua genitora, e foi por esta relação de dependência que Portman estagnou na primeira fase de desenvolvimento psicossexual, a fase oral. A partir disso, percebemos as semelhanças entre ela e a personagem Norman Bates (Anthony Perkins) de Psicose (1960). Os dois são sujeitos adultos que ficaram estagnados psiquicamente na fase oral, tendo desenvolvido apenas o id como estrutura psíquica.   

Uma parte importante na produção de 2010 que mostra a dependência como fator primordial na relação fraternal é quando aparece o quarto de Nina. Toda a decoração do espaço nos faz lembrar de um quarto de meninas de seis anos de idade, e que por isso não coincide com a idade da bailarina.

Outro fator, na mesma cena, é quando a câmera foca na roupa íntima que a mesma está usando, que nos faz lembrar, novamente, de uma criança na segunda infância.  Por conta da relação simbiótica que tem com a mãe, Nina distancia-se, num primeiro momento, de seu ego para além da realidade a qual vive. Depois disso, o seu ego será restabelecido, mas isto ocorrerá pelas vias do id.

Como forma de proteção ao gênio dominante da mãe, Nina provocará o distanciamento do ego, um distanciamento total entre ela e sua realidade propriamente dita, e é nesse momento que a personagem entra no que podemos chamar de surto psicótico. Nina voltará a se estabelecer com o seu ego, no entanto, a força não estará nas vias dele, mas no id, trazendo a superiorização do princípio do prazer sobre o princípio de realidade.  

Cisne-Negro

O lado mais sombrio de Nina, o Cisne Negro que vive dentro dela, é um mecanismo de proteção que ela projeta em Lily (Mila Kunis). Nossa protagonista tem dentro de si tanto o Cisne Branco, o seu lado doce, quanto o Cisne Negro, o seu lado sombrio. O Cisne Branco representa aquilo que a mãe de Nina quer que ela seja; enquanto o Cisne Negro é tudo o que a própria Nina gostaria de ser.  

Cisne Negro é um rico objeto de estudo sobre o efeito da psicose no psiquismo humano. A brilhante interpretação de Natalie Portman, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, em 2011, nos domina do início ao fim, provando a razão da obra de Darren ser vista como uma das melhores produções de terror psicológico.

Fonte: Psicose – Diagnóstico, conceitos e reforma psiquiátrica (2007). Samuel Lins

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