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Scott Pilgrim vs. Como Fazer Adaptações

Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), filme que ganhou status cult durante essa década, é uma lição de como convergir mídias diferentes.

A vida de um jovem (Michael Cera) que tenta negar seu passado e redescobre o amor, através de Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead), é uma perfeita mistura de videogame, quadrinhos, música e, é claro, cinema. Isso se deve muito pelo trabalho do diretor Edgar Wright (também diretor do cultuado Todo Mundo Quase Morto, de 2004) em trazer para a tela os quadrinhos de Brian Lee O’Maley, da mesma forma energética e subversiva às técnicas clássicas.

Film Title: Scott Pilgrim vs. the World

No detalhe, Scott veste uma camisa do Plumtree: a banda escreveu uma música chamada “Scott Pilgrim” que deu inspiração ao autor para escrever os quadrinhos. O filme presta homenagem à banda.

O filme pode parecer uma obra singular em seu conteúdo, mas isso é até perceber que tudo o que tem de diferente do formato convencional vem direto do seu material original: as transições de tempo e espaço, as onomatopeias visuais e diálogo no ponto. Impulsionado pelo melhor que a tecnologia cinematográfica pode oferecer em fotografia, montagem, efeitos especiais, e, acima de tudo: atenção ao detalhe.

Para estimar se uma adaptação vai funcionar é necessário preencher uma série de pré-requisitos antes: o material permite uma conversão de seu formato para filme? O espectador desfruta do filme sem ter conhecimento prévio do material? O material é bom? A estética pode ser reproduzida? Existe espaço para easter eggs dedicado a fãs? Se a resposta de algum desses for não, já fica difícil esperar um bom retorno, seja da crítica, do público ou da bilheteria.

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Filme vs. Quadrinhos: feitos um para o outro.

Por sorte, Scott Pilgrim preenche toda essa lista. Tanto que Edgar Wright viu isso antes do último volume dos quadrinhos ter sido lançado e prontamente iniciou a produção do filme. Assim, a história de um jovem de 22 anos que precisa derrotar os 7 ex-namorados do mal de sua paixão se tornou uma aventura cinemática cheia de cor, inteligência e dinamicidade.

Como fazer tudo funcionar? Sem se levar muito a sério, até porque se trata da adaptação de um material com tom bem leve. Compondo o elenco com atores não tão reconhecidos por trabalhar com comédia, o que confere uma naturalidade à comicidade do filme. E transportando os quadrinhos direto para a tela quando oportuno, a surpresa é que tudo funciona perfeitamente bem, e talvez não tivesse o mesmo efeito positivo se feito de outra forma. Confira nessas imagens:

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WE ARE SEX BOB-OMB!

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Atenção ao detalhe é a máxima aqui!

A estrutura de Scott Pilgrim Contra o Mundo é bem similar a de um jogo: derrote os chefes, colete moedas, derrote o chefão, ganhe a princesa. Dando assim fundamento à estética de videogame em alguns momentos do filme, permitindo que o estilo se sobreponha à estrutura em pontos-chave. Como sendo o filme que melhor traduz no cinema esse formato, pode ser considerado a melhor adaptação de videogame até hoje, porque esse tipo de adaptação costuma ser falho e desrespeitoso.

O filme também é recheado de música, elemento que teve carinho especial na adaptação por ser um elemento tão fundamental nos quadrinhos, já que Scott é baixista da banda Sex Bob-Omb. A música original foi composta por ninguém menos que Beck, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de 2015, tendo fundido sua voz perfeitamente com a do personagem Stephen Stills (Mark Webber), vocalista da banda.

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Isso significa que é uma adaptação perfeita? Não, até porque não existe adaptação perfeita, e, mais especificamente nesse caso, o filme foi produzido antes do material original ter sido completamente publicado. Mas, e então? Significa que é um filme que consegue entender sua origem e transportar para outro formato todo o seu conceito e originalidade, sem que a falta ou incompletude de algum elemento seja sentida.

Scott Pilgrim Contra o Mundo é um retrato da cultura pop de adaptações de quadrinhos que se reenergizava nesse período entre-décadas, mas que ainda não tinha encontrado seu pico, o que aconteceu com Os Vingadores (2012). Talvez por estar nesse período de aceitação, o filme não atingiu sucesso comercial durante seu período de exibição (ainda mais pelo fato do material original ser de origem independente), tanto que no Brasil teve exibição limitada somente em algumas salas de São Paulo. Seu status de cult veio com o tempo e o boca-a-boca, similar com o que aconteceu com Blade Runner (1982).

Scott Pilgrim Contra o Mundo é um filme que vai ser lembrado e adorado por muito tempo.

 

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