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Coração de Dragão: quando a Trilha é melhor que o filme

É comum pensar em grandes trilhas de grandes filmes, mas e grandes trilhas em filmes não tão bons assim?

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Ao pensar em grandes trilhas do cinema, automaticamente grandes filmes e diretores vêm em mente. É impossível pensar em Ennio Morricone sem pensar nas suas colaborações com Sergio Leone, sem pensar em Cinema Paradiso (1988) ou O Enigma de Outro Mundo (1982). É impossível pensar em Bernard Herrmann sem pensar em Alfred Hithcock, Cidadão Kane (1941) ou Taxi Driver (1976). Impossível pensar em Miklós Rózsa sem pensar em Ben–Hur; é impossível pensar em Hans Zimmer sem pensar em Christopher Nolan e Além da Linha Vermelha (1998), Gladiador (2000) ou O Rei Leão (1994). Igualmente impossível pensar em Carter Burwell sem pensar nos Irmãos Coen, em Martin McDonagh ou em Todd Haynes, e é impossível pensar em John Williams sem pensar em Steven Spielberg, Star Wars, Superman (1978), JFK (1991) ou Harry Potter; entre outros muitos exemplos. Mas o que acontece quando você pensa em Randy Edelman? E é possível uma grande trilha acontecer sem um grande filme?

Randy Edelman é, talvez, um dos compositores de trilhas sonoras para filmes mais subestimados e injustiçados do cinema – quem sabe ele seja até “o mais”, tendo em sua carreira filmes que não conseguiram transmitir a amplitude do seu talento como a pessoa no papel vital de agregar força às imagens através do som. Tendo composto trilhas para filmes como Anaconda (1997), Seis Dias, Sete Noites (1998), Triplo X (2002), Loucuras na Idade Média (2001), A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008), entre outras bombas, fica claro que o talento de Edelman foi subutilizado em filmes aquém dele.


Randy Edelman com a CCM Philharmonia. Fotografado por Dottie Stover.

Não obstante, em filmes mais leves como Meu Primo Vinny (1992), Beethoven, O Magnífico (1992) e O Maskára (1994), fica claro o seu talento para compor trilhas que alcancem o timing cômico das produções. Ainda assim, é em filmes como O Último dos Moicanos (1992), Anjos Assassinos (1993), e Dragão: A História de Bruce Lee (1993) que ele mostra a extensão do seu talento e da sua versatilidade, especialmente voltados pra narrativas mais épicas.

Contudo, o seu ápice, sem sombra de dúvidas, foi Coração de Dragão, no qual Edelman consegue construir uma pequena obra–prima dentro de um filme mediano por meio da sua trilha, até elevando-o. É esse o filme no qual ele prova que os filmes em que ele participa podem não ser grandes coisas, mas as suas trilhas podem ser as melhores partes deles.

Lançado em 1996, Coração de Dragão não é um filme ruim, mesmo que não seja fantástico: é um divertidamente brega retrato de um conto medieval e um blockbuster dos anos 90. Produto do seu tempo, ele acaba sendo oco e tendo méritos no geral, conseguindo construir um entretenimento divertido e sincero. Equilibrando a sua falha em se levar a sério com um senso épico e verdadeiro, ele tem seus momentos de empolgação numa narrativa que não é impressionante em nenhum dos demais aspectos além daqueles que falaremos, mas que consegue ser assistida sem muitos problemas.

O filme é dirigido por Rob Cohen, parceiro habitual do compositor. Praticamente um funcionário da indústria de blockbusters, como diretor ele é um artista mediano, pois apresenta alguns destaques e muitos pontos baixos. Portanto, o que diferencia Coração de Dragão de qualquer outro blockbuster genérico dos anos 90 é a sua trilha sonora, muito acima do seu próprio filme.

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A trilha de Randy Edelman em Coração de Dragão é um trabalho bonito, uma obra linda que articula com perfeição com um grandioso conceito de fantasia transmitido apenas pela música, algo que acaba sendo muito maior e muito mais épico que o próprio filme. Randy consegue entender esse conceito de forma mais acertada do que o restante da produção, fazendo uma trilha digna do trabalho de Howard Shore para a trilogia Senhor dos Anéis ou Ramin Djawadi em Game of Thrones (num trabalho com várias semelhanças e paralelos com o de Edelman nesse filme).

A sua trilha é grandiosa no seu próprio estilo arrebatador, visto que consegue fazer uma mistura de cordas musicais e trompete com o certeiro toque de instrumentos de sopro para criar uma combinação tão magistral que é capaz de deixar qualquer um estarrecido ao ouvir ela.

O ápice está na composição “Finale” ou “To The Stars”, uma das melhores músicas instrumentais já feitas para um filme, na qual ele constrói uma linda música incidental de orquestra que evoca uma grandeza como poucas partituras de filmes conseguem. Ela é, basicamente, uma evocação e um símbolo do que existe de melhor no cinema em forma de música, sendo essa graciosidade perfeitamente traduzida em som. Cada parte da música final é magistral e estabelece o filme como uma grandiosidade impressionante.

Além de tudo, a trilha sonora de Coração de Dragão é mais uma prova de que o cinema é um trabalho colaborativo. Nem sempre todos os trabalhos vão funcionar no mesmo equilíbrio, por mais que isso seja o esperado. Existem elementos que, mesmo assim, podem se destacar e até podem elevar o seu material – ainda que não seja comum. Trilhas são um bom exemplo disso, e a de Randy Edelman é um dos maiores casos.

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