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Análise | Watership Down: a animação como linguagem artística

Recentemente readaptada com muito cuidado como uma minissérie de animação pela Netflix, revisitar a primeira adaptação de Watership Down é uma chance de ouro para se conhecer uma outra visão da mesma história e entender que a animação não é gênero, e sim uma forma de arte e de linguagem.

Aberto para as mais amplas e diferenciadas abordagens, muito pode ser visto nesse conto pesado, profundo, tenso, complexo, emocionante, violento e belo sobre a vida e o além dela.

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Conceitos são coisas estabelecidas que podem e devem ser quebradas, desafiadas, questionadas e direcionadas de forma diferente. Existe um conceito que existem algumas que são intocáveis e esse conceito é verdadeiro. Porém existem algumas obras que por mais imortais que sejam estão abertas pra olhares e visões diferentes conforme o tempo. Esse é o caso de Watership Down, livro do autor britânico Richard Adams, que já rendeu um filme na década em 1978, uma série animada pra TV na década de 90 e uma minissérie feita pela BBC e distribuída internacionalmente pela Netflix em 2018. A obra de Adams é imortal e atemporal, sobrevivendo ao tempo e podendo ser refeita com o meu espirito, mas com direito a visões e olhares diferentes. Existe quase um apelo Shakespeariano nessa ideia de adaptação.

Esse não é o único conceito direcionado de forma diferente envolvendo a obra. Há outra quebra, que é uma das mais importantes. Existe uma ideia bastante comum, mas incorreta, de que animação é algo feito exclusivamente “para crianças”, do mesmo jeito que não devem ser feitas exclusivamente “para adultos” com exclusão do público infantil. Na realidade, podem sim existir animações maduras, para um público mais velho, e nem por isso elas são algo “menor”.

Existe ainda a ideia de que uma animação direcionada para o público infantil tem que ser mais “infantilizada” ou, de certa forma, subestimar as crianças e poupá-las, o que também é incorreto. Como um todo, Wathership Down quebra todas essas ideias, mas o faz principalmente em sua adaptação de 1978.

Aqui, Watership Down foi roteirizado e produzido por Martin Rosen, que também assumiu a direção do projeto após desentendimentos com o diretor anterior, John Hubley. Rosen adaptou, na década de 80, outra obra de Adams para o cinema, o também fantástico The Plague Dogs de 1982. Adams nunca escreveu suas obras para crianças ou pensando nelas como público alvo, porém, por trabalhar com personagens principais como animais antropofagísticos, grande parte do seu público era de crianças. Dessa forma, a maior parte dos espectadores de Watership Down também foi de crianças. Ainda assim, é incrível como Watership Down consegue encontrar o equilíbrio perfeito no que foi dito acima: não sendo completamente inadequado para crianças mais velhas, mas sem ser algo pensado para crianças.

Crianças pequenas seriam afetadas de forma provavelmente traumática com o conteúdo violento, cheio de sangue, assustador, dramático, tenso e pesado do filme, mas a mesma obra serve muito bem como um tipo de “passagem” para crianças em uma idade mais velha e que estão crescendo. É uma experiencia cinematográfica transformadora.

Essa obra–prima cinematográfica e da animação explora inúmeros temas adultos de forma explícita, clara e extremamente adulta, como: política, fascismo, preocupações ecológicas, opressão, opressão masculina, religião, morte, espiritualidade, paranormalidade, vida pós morte… além de, claro, dinâmicas sociais em grupo e a ideia de comunidade e viver em comunidade, e impressiona ao falar com tanta riqueza de relações profundamente humanas mesmo tendo um bando de coelhos como protagonistas.

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A obra serviu quase como um percussor para algo que BoJack Horseman faz hoje em dia e, claro, seguindo uma tradição histórica de usar animais como metáforas em narrativas para expor e tratar de temas sociais, o que podemos ver também em obras como A Revolução dos Bichos de George Orwell e Maus de Art Spiegelman. Como temas que são muito complicados para crianças, estando inseridas em uma narrativa sobre animais que falam, elas podem entender melhor e serem preparadas para como lidar com elas no futuro, já que foram apresentadas anteriormente a elas.

Afinal, muitos artistas e cineastas, pessoas que trabalham com animação defendem, cobertas de razão: animação não é e nem deve ser visto e tratado como um gênero. Animação é uma forma de linguagem e uma forma de arte, a qual está aberta para os mais diversos estilos visuais e narrativos, públicos e propostas. Animação é a fronteira final, mais ampla e aberta para todas possibilidades visuais e narrativas possíveis, de todos os jeitos possíveis.

E é isso que essa obra–prima de 1978 entende perfeitamente bem. Watership Down consegue explorar de forma gigante e poderosa a linguagem da animação, criando um filme terror, de certa maneira, mas também oferecendo ao mesmo tempo uma aventura emocionante e envolvente sobre um grupo de coelhos em sua jornada em busca de um novo lar. A premissa de histórias sobre animais viajando é algo comum em animações, mas Watership Down coloca isso no nível mais complexo e emocional possível. A trama entende que pode traçar o seu olhar único sobre qualquer tema na linguagem que está e vai a fundo nisso.

Além da temática adulta em seus muitos assuntos e de alguma linguagem pesada aqui e ali, a violência e as cenas sangrentas em Watership Down são traduzidas para a tela da maneira mais visceral, crua e realística possível. Tensão e desconforto são sentimentos comuns nessa cena. Ao mesmo tempo em que a violência não é apenas sanguinária, o sofrimento físico e psicológico que os coelhos passam e testemunham durante a jornada é traduzido também de maneira exemplar como, por exemplo, numa cena assustadora em que eles são sufocados vivos.

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Mesmo assim, nada disso, nem as cenas de violência, o sangre e o sofrimento parecem gratuitos, em momento nenhum. Isso tudo está lá para testemunhar o horror que o mundo reserva para os coelhos em sua luta por sobrevivência, para os oprimidos, os perseguidos, em qualquer jornada enfrentando a perseguição e um mundo cheio de perigos, e como eles terão que o atravessar por mais difícil que seja.

O filme consegue transmitir os mesmos sentimentos aos espectadores testemunhando esses horrores que os coelhos sentem quando passam por eles. Ele consegue, também, equilibrar esse horror como uma beleza e uma emoção humana ímpar, refletindo quase que com perfeição o mundo: um misto de horrores e, ainda assim, estranhamente belo.

O equilíbrio é em muito ajudado pelo espetacular trabalho de voz do elenco. O genial e saudoso John Hurt, como de costume, faz um trabalho maravilhoso dando uma personalidade tão distinta e formal para Henzel em sua voz, mas ainda assim bastante emocional também. Ele consegue capturar tanto o lado heroico quanto o desesperado. Richard Briers, como Fiver, faz um trabalho muito interessante entregando um traço leve, quando comparado com o tom que a sua voz realmente tem, o que prova a sua versatilidade e o faz capturar bem a inocência espiritual e doce da sua personagem. Entretanto, quem rouba a cena é Michael Graham Cox, incrível no papel do temperamental anti-herói de bom coração Bigwick, mostrando toda a força, acidez e dualidade da personagem em sua voz, tornando palpável o seu desenvolvimento.

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Zero Mostel como Kehaar, em seu trabalho final, parece ter sido de onde Dom Deluise tirou todas as dicas para os seus trabalhos de voz no futuro, nas animações de Don Bluth. Mostel adiciona um tom mais leve do que qualquer outro personagem no filme e a sua abordagem cômica funciona muito bem, como se ele estivesse em um dialeto e forma de agir completamente diferente das outras personagens simplesmente por ser um pássaro. Isso justifica a sua diferença de tom e faz com que ele seja um alivio cômico bastante funcional.

Harry Andrews, conhecido por tipos fortes e autoritários, compõe o que é esperado dele no seu vilão, mas faz um exemplo particularmente bom utilizando uma maneira rude de falar e maneiras selvagens para compor o cruel General Woundwort. Mesmo que breve, vale mencionar também o trabalho de Joss Ackland como o Coelho Negro, trazendo à tona um positivamente amedrontador, porém nem um pouco negativo ou aterrorizante aspecto da morte. E Rory Kinnear, como Pipkin, o qual faz um trabalho lindo, trazendo as suas sensibilidades cômicas em sua voz de maneira muito natural.

A música Bright Eyes, do cantor Art Garfunkel, acompanha o filme e é uma canção muito bela e melancólica, mas talvez eu tenha que admitir que é a minha parte menos favorita do filme. Ela acaba parecendo inapropriada para o filme em que está. É uma música grudenta e simples, mas, apesar disso, ela vai se transformando em um hino inspirador para desenvolver raízes mais sombrias, muito como o próprio filme.

Agora temos a oportunidade de ver uma nova visão dessa história com a bem-feita minissérie da Netflix, que está acessível para todos e merece ser vista. Ela cumpre um papel importante por ser mais acessível e poder formar um público que tenha interesse nessa história. E, claro, tem os seus próprios méritos. A grandiosidade do que o filme de 1978 consegue adicionar à obra, entretanto, é inalcançável. Por isso, ele merece ser procurado, mais visto e mais lembrado como uma das maiores obras–primas da animação já feitas.

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Categorias:Colunas, Filmes

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