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Análise| Black Mirror – Striking Vipers

Black Mirror é sobre tecnologia, sobre como lidamos com ela ou entendemos tudo errado?

Um dos pontos sobre o primeiro episódio de BM da quinta temporada, Striking Vipers, é ter criado uma enorme discussão sobre se ele tem a ver com a filmografia proposta pela série ou não. Alguns acharam a trama lenta, cheia de furos, outros se limitaram a dizer que era somente chata. Alguns, ainda, chegaram a criticar a  locação, que foi feita, em parte, na cidade de São Paulo.

Qualquer obra artística é um livro aberto para todo tipo de opinião, entendimento e interpretação. Uma obra em eterna construção pode ser o termômetro necessário pra se avaliar a narrativa social. Digamos que os conceitos e os conflitos que o momento presente enquadra, envolvem uma serie de processos, afinal a humanidade está em eterna evolução, ela anda por linhas tortas, mas ela não para. É o momento de refletir sobre as descobertas humanas, o que elas envolvem e por que acontecem.

Seria ingênuo pensar que um avanço científico, seja ele qual for, vem como um fato isolado. Socialmente, o impacto que uma descoberta traz derruba uma série de conceitos pré-estabelecidos de acordo com a força que ela tem e a esfera social que ela abrange. A chegada da internet, por exemplo, desconstruiu as relações interpessoais, a forma como lidamos com questões práticas do dia-a-dia, a nossa relação com o corpo, a forma de consumir conhecimento, as artes e também mudou a nossa forma de pensar a sexualidade.

Striking Vipers vai construindo sua narrativa baseada na vida de um típico homem de classe média, Danny (Anthony Mackie). É a parte interessante da história e, provavelmente, o foco central do incômodo que ela gera: Danny é também o símbolo masculino de provedor, pai de família envolto pela rotina desse arquétipo burguês. Karl (Yahya Abdul-Mateen II), por outro lado, o antagonista, o que negou toda essa construção, a figura sempre vista como irresponsável, escorregadia, incapaz de se prender num relacionamento e que reaparece na vida de Danny no seu aniversário de 38 anos, é o questionamento existencial que aflora no protagonista. Essas duas personalidades irão entrar em colapso. Mas o que elas significam? Por que elas se enfrentam nesse momento?

Danny e Karl são complementares. O que falta em um, o outro tem e o que os dois têm em comum, os aproxima. Nesse momento, é imprescindível o ímpeto de Karl que convida Danny para o jogo, um game em realidade virtual, Striking Vipers, onde os jogadores podem sentir os efeitos sofridos pelos avatares fisicamente.

No entanto, um outro questionamento a cerca do desenvolvimento dos personagens aparece como um desafio. É o ponto em comum em todos os episódios de BM e consolida o questionamento inicial desta análise. Qual o papel da tecnologia nisso tudo? Ela entrega a resposta na forma de outro desafio: recriar o conceito de humanidade proposto pelo mundo virtual que, apesar de ser uma invenção, de ser algo artificial, toma um rumo inesperado quando lida com as reações adversas de cada individuo. No caso do jogo, ele ressignifica a própria consciência do eu, capaz de transforma-lo em um gênero à sua vontade, colocando em cheque a construção da sexualidade, as relações íntimas e a figura do homem.

A figura masculina, que vem sendo edificada por gerações e mais gerações, é o grande calcanhar de Aquiles da nossa sociedade. Qualquer suposta ameaça a esse arquétipo gera incômodo, desperta os sentimentos supremacistas e atiça os ânimos de exércitos conservadores incapazes de enxergar a diversidade da existência que por si só não traz ameaça alguma, somente evidencia o óbvio.

Black Mirror é sobre tecnologia e como lidamos com ela, mas entendemos tudo errado.

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