Séries

Análise | O roteiro de The Marvelous Mrs Maisel

O que uma mulher vivendo o sonho americano em plena Nova Iorque dos anos 50 teria a dizer para o mundo, caso seu mundo desmoronasse? Ela contaria uma piada, certamente. Uma boa piada.

Amy Sherman Palladino, criadora de Gilmore Girls, dirige e escreve o seriado estrelado por Rachel Brosnahan como Miriam “Midge” Maisel. Sherman tem um estilo único de escrever, além de sempre contar histórias de mulheres marcantes. É até difícil se concentrar em apenas um aspecto do seriado: a direção de arte é primorosa, a fotografia é elegante e charmosa, o figurino um deslumbre, os atores fabulosos.

O script de Amy ganha sempre personagens verborrágicos, ainda mais se tratando de comediantes com bom timing, sacadas inteligentes e cheios de assunto.

Roteiros são cheios de armadilhas. Um dia você tem uma boa ideia para uma história, passa um tempo pensando e estudando sobre ela, sobre como isso pode virar um filme e no meio do processo você descobre que não entende nada do que sua narrativa fala. Ir mais fundo é mais difícil do que você imagina.

Nesses momentos, ver uma obra como The Marvelous Mrs Maisel sendo bem executada na tela à sua frente traz uma admiração incrível por quem a idealizou. A construção das personagens tem esse quê de complexidade, porque você está criando alguém com características que, ainda que tenham coincidências com as suas, são únicos e, em algum momento, ganham vida própria. Por isso, escrever roteiros é somente a última etapa de um processo gigante de desconstrução, de reavaliação e, sobretudo, de pesquisa.

O seriado se passa no final da década de 50 dentro de uma família judia. As referências históricas e dos costumes judaicos estão por toda parte. É o que transforma a personagem na tão intensa, contraditória e sagaz Midge. Além de tudo, ela toma o protagonismo para si no momento em que o caminho se mostra adverso. São nesses pontos em que a história ganha mais coesão: você desafia seu protagonista, ele te desafia de volta e a empatia cresce, não só pela surpresa, mas porque a personagem ganha um poder reflexivo, intrigante e convidativo.

É nessa dança de emoções que se constroem os heróis ou heroínas de uma história. Por isso mesmo, não se criam heróis perfeitos e uma regra universal, até mesmo para a nossa vida, é que a sua melhor qualidade é também o seu pior defeito. Com isso, Mrs Maisel te chama para seu universo com seu humor sarcástico, irreverente e ao mesmo tempo nos intriga por ela ter apego à vida que ela construíra com o marido: o sonho americano, a mulher que vive para o lar, para os filhos e para o homem. O seu desejo de conquistas mostra a tridimensionalidade da personagem.

A criatividade humorística é o outro traço do roteiro que é sempre um deleite nas criações de Amy: sacadas simples, pequenos detalhes e muitas e muitas referências que se aproveitam eficientemente da época a que o mesmo se propõe. Imagine, então, uma Nova Iorque repleta de pensadores, artistas, movimentos sociais que respondiam ao momento presente. É um bom motivo para sair da zona de conforto e mudar a si mesmo.

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