Filmes

Análise | Kurosawa e Os Dois Mundos

Um dos grandes cineastas da história, Akira Kurosawa soube extrair o melhor de dois mundos (Oriente e Ocidente) em sua filmografia sem perder as suas raízes, origens e adicionando referências a elas.

Um dos motivos que faz Akira Kurosawa ser o meu diretor favorito é, entre muitos, a sua incrível habilidade de versatilidade, conseguindo ter um estilo absolutamente próprio, característico e autoral, ao mesmo tempo em que consegue passear por diversos estilos, gêneros e tipos de filmes. O cinema dele é rico de várias maneiras, sendo elas técnicas, narrativas e temáticas, sempre investindo em críticas sociais, políticas e um olhar profundamente humano da sociedade. Um dos exemplos disso é a sua relação com a literatura, o teatro e obras europeias e americanas, utilizando–se de inúmeras referências nelas para agregar a sua obra. Kurosawa era um homem sem preconceitos que lia clássicos, livros contemporâneos, estrangeiros e japoneses sem discriminação. E os traduzia para referencial em seus filmes.

Por isso, muitos detratores do seu filme injustamente falavam que o cinema era “ocidentalizado” demais, o que a meu ver é uma crítica sem sentido. Kurosawa se utiliza de referências de obras dos mais diversos lugares como todos nós fazemos com o que vemos e gostamos, mas ele traduzia isso para a realidade e cultura japonesa, como também referenciava elementos do próprio Japão, das suas obras, história e cultura nunca deixando de ser um cineasta japonês. Dostoievsky, Tolstoi, Gorki, Van Gogh e o romancista policial americano Ed McBain, foram alguns dos autores que inspiraram as obras do japonês e a sua formação como cineasta e artista. Em um diálogo constante entre o oriente e o ocidente, Kurosawa sempre fez um cinema pensando no seu país, respeitando a sua temática e nunca se sentiu na obrigação de agradar o estrangeiro, pelo contrário. Seu cinema falava de questões profundamente japonesas, seus personagens eram japoneses e seus filmes tratavam desde trauma pós Segunda Guerra Mundial, pós Hiroshima, até o chocante crescimento econômico do país, desigualdades, a corrupção e injustiças sociais. Mas, ao mesmo tempo, ele também construiu uma filmografia universal, globalizada e que estabelece um diálogo entre o oriente e o ocidente. Uma ponte de referências.

Por isso, não é espantoso que Yojimbo (1961) se tornasse um remake pelas mãos de Sergio Leone em Por um Punhado de Dólares (1966) ou em filmes como O Cão Danado ou O Cão Raivoso (1949), se tornassem inspirações do gênero policial, para filmes como o americano Seven (1995) de David Fincher ou o argentino O Segredo dos Seus Olhos (2009) de Juan José Campanella. Dentre os artistas estrangeiros citados, um que ainda não foi mencionado, marca a obra do diretor mais de uma vez: William Shakespeare. Se Kurosawa é o meu diretor favorito, Shakespeare é um dos meus autores favoritos, se não favorito. Sem sombra de dúvidas, é o maior dramaturgo de todos os tempos e é um dos grandes retratistas da humanidade com uma dramaturgia tão simples e tão bem elaborada. Já tendo sido adaptado por: Laurence Olivier, Kenneth Branagh, Orson Welles e muitos outros artistas, em versões e em adaptações.

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Uma das adaptações de Shakespeare para o cinema são suas versões das peças de O Bardo, que estão entre as suas melhores, tanto por conseguir extrair o estilo de Shakespeare quanto por ser engradecido pela abordagem ousada de Kurosawa. Seja em Trono Manchado de Sangue (1957) adaptando Macbeth (1606), Hamlet (1609) em Homem Mau Dorme Bem (1960) ou Rei Lear (1606) em Ran (1986). É esplendido como o diretor constrói essas obras compreendendo o seu material de origem, adicionando um tratamento a elas que as torne próprias dele, com um espírito muito grande da sua fonte primária. Em Trono Manchado de Sangue, por exemplo, Kurosawa cria uma verdadeira história de terror, o que faz muito sentido com a premissa sobre a transformação de um homem em um monstro, traz um retrato muito próprio a decadência moral do seu protagonista traduzindo a sua jornada. Mais uma vez, o diretor prova como não abandona jamais elementos do Oriente, usando principalmente visuais do Teatro Noh, o teatro clássico japonês, para ilustrar a história esteticamente adicionando uma identidade ainda mais própria a ela. Isso leva a momentos de criação visual imensamente fortes e de grande poder, como a aparição das três bruxas, agora representadas como um espírito de forma monstruosa com teias de aranha, como se estivéssemos em algum conto japonês, ou a quando ele mostra as profecias envolvendo o destino de Washizu Taketori, o seu Macbeth.

O cineasta consegue utilizar Toshiro Mifune e Isuzu Yamada de maneira tão brilhante, fazendo com que ambos construam as suas versões de Macbeth e de Lady Macbeth que conversam maravilhosamente com o espírito dos personagens originais e todo o significado dos seus arcos universais, caminhando na mesma intenção e destino de seus personagens, porém em um contexto completamente diferente. E então, num dos melhores usos de “quebra de expectativa do cinema”, Kurosawa descarta uma batalha final e grandiosa que encerraria o filme normalmente, para ao invés disso, mostrar o seu Macbeth japonês sendo traído pelos seus próprios homens e atingido por flechas, o que leva a sua morte. Em uma história que tem como foco a jornada para a loucura, terminar de uma forma tão alucinada acaba encontrando a forma perfeita, em uma escala épica e pessoal mostrando o desespero final de um homem destruído pela própria loucura e decadência moral.

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Já em Homem Mau Dorme Bem, Hamlet é mais uma inspiração para a trama central do que qualquer outra coisa, com os personagens representando os papeis da peça original, mas em um contexto diferente e sem seguir a mesma linha da peça. As duas obras são um retrato de vingança, um universo corrupto e a maldade humana, porém, com a forma de se construir os retratos diferentes. Mais uma vez, Kurosawa entende o espírito da obra original, porém segue uma outra abordagem na sua adaptação. Se no exemplo anterior em Trono Manchado de Sangue vemos a utilização de sua filmografia no terror, aqui em Homem Mau Dorme Bem vemos o cineasta construindo um thriller procedural com elementos de um policial neo noir que acaba se transformando em um drama. Ele é muito parecido com Céu e Inferno (1963), uma de suas obras–primas, ao utilizar um thriller policial para traçar um estudo sobre desigualdade, questões morais e sociais dentro do mundo dos negócios. Aqui o assunto é a corrupção, sobretudo a empresarial.

A comparação com Céu e Inferno é interessante porque ambos filmes compartilham da habilidade magistral de Kurosawa em filmar e enquadrar seus cenários e personagens em uma criação de planos invejáveis. Ele cria planos gerais em que conseguimos ver os personagens interagindo entre si e a ação de cada um deles em cena. E as ações, os jeitos que estão posicionados e sendo filmados diz muito sobre quem são aqueles personagens e suas ações dentro da narrativa. O que acaba nos levando a forma como ele, visualmente e esteticamente, constrói outra de suas obras–primas, Ran. Se Trono Manchado de Sangue é sobre a loucura e Homem Mau Dorme Bem é sobre a corrupção, Ran então fecha essa trilogia falando sobre a crueldade da guerra e do poder. Ran também é muito mais uma inspiração em Rei Lear do que uma adaptação, mas dentro de sua própria criação e características, expõe os temas centrais da peça original. Essa jornada é organizada de forma caótica e apocalítica como se aos pouquinhos estivesse apresentando a calmaria para entrar uma tempestade. A calmaria quieta e até alegre, vai saindo do controle e se apresentando como uma tempestade violenta, devastadora e destruidora, criada pelos pecados do patriarcado. Kurosawa é genial em atingir essa escala e conciliar o tom até chegar ao momento em que vemos uma família destruindo-se por completo.

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Kurosawa então mergulha numa espécie de ópera sobre a destruição, conseguindo conciliar cada um dos detalhes do longa e criando uma das epopeias mais viscerais do cinema: combinando um uso de cores fascinante, os seus costumeiros e já citados planos gerais, as cenas de batalha, o uso dos atores, a trilha, o som, tudo é tão bem direcionado e organizado. E é uma opera tão inteligente e tão poderosa que ela não abandona os seus momentos de silencio que depois da destruição retomamos para a calmaria. Porém, agora vemos o filme com um enquadramento que simboliza os resultados solitários e tristes de toda a destruição causada por ambição, egoísmo e sede de poder. Ele aprimora inclusive elementos do seu próprio cinema como o uso do sangue em Sanjuro (1962) aqui traduzido novamente em uma cena, só que se aprimorando da cor para dar uma vida especial a cena.

Tudo isso traduzido pelo mestre em um dos seus momentos finais de genialidade, se utilizando dos recursos que tem ao redor ao máximo. Um mestre que no momento já está quase cego e se utilizou das imagens dos milhões de storyboards que fez para traduzir o filme visualmente direcionando perfeitamente o papel dos seus diretores de fotografia e assistente de direção nisso. Steven Spielberg costumava dizer que Kurosawa era o “Shakespeare cinematográfico do seu tempo” e é uma comparação que faz sentido. Os criadores se misturam em suas genialidades, criatividades e habilidades. Em sua trilogia particular, Kurosawa usou Shakespeare, como também usou outras obras suas para falar do contraste entre ocidente e oriente construindo adaptações muito próprias da obra de O Bardo. Ousadas, pessoais, grandiosas, ambiciosas e fascinantes. Não tem como se esperar nada mais ou nada menos do cinema de Kurosawa.

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