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Crítica | Modern Love

Modern Love está disponível na Amazon Prime com 8 histórias baseadas numa coluna que já circula há 15 anos no The New York Times, com mesmo nome. O que pode ter sido uma tentativa de trazer umas perspectiva de reconstrução das comédias românticas, termina por nos colocar diante de mais uma produção que se nega a retratar o amor como ele realmente é. Ou para quem.

Uma nova década batendo em nossa porta, um mundo trazendo os mais ricos questionamentos sobre a humanidade, sobre reparação para com os menos favorecidos deixados à mercê da marginalidade histórica. Precisamos debater e reconhecer, antes de tudo, que o lugar de fala, ocupado há tantos anos pela mesma voz, precisa ser mudado. É preciso assumir a importância que o audiovisual detém no mundo moderno e se o mesmo falha, ao mostrar apenas um pequeno espectro do que o mundo representa, falhamos igualmente.

A atriz Anne Hathaway junto ao ator Gary Carr.

Não que os episódios de Modern Love (2019) não sejam emocionantes ou até mesmo originais. Eles são. Mas, é visível o malabarismo que a direção dá ao empurrar para papeis coadjuvantes àquilo que poderia enriquecer as tramas. No episódio “Um mundo só pra ela”, um casal gay interracial quer adotar uma criança. “Finalmente!”, você pensa. Mas, aos poucos, o episódio exclui a participação de Brandon Kyle Goodman (único ator negro a ter um papel mais ativo na série), lhe dando cada vez menos falas, menos cenas e impedindo que o personagem se desenvolva. Ou no episódio em que Anne Hathaway (que dá um show de atuação) interpreta Lexi, uma mulher com transtorno bipolar e que sofre duras consequências pelo seu distúrbio. Uma ótima oportunidade para se retratar o conflito que muitas pessoas vivem, claro. Lexi se interessa por um rapaz que ela conhece no supermercado. Negro, mais ou menos uns 30 anos e só. Eis então, que a única pessoa a lhe estender a mão e criar uma solução para o conflito, Silvia (Quincy Tyler Bernstine), se resume a alguém de quem nada sabemos igualmente e se restringe a pouquíssimas falas. Adivinhem só. Ela é negra.

O ator Brandon Kyle Goodman (da esquerda para direita) junto ao ator Andrew Scott.

Embora outros episódios tenham enfoque não só nas relações românticas, a heteronormatividade prevalece, não deixando de mencionar que os roteiros foram construídos para nos trazer uma falsa impressão do que virá, nos levando sempre para histórias que acabam cometendo o mesmo erro de décadas de cinema. Em “Então ele parecia um pai, e era só um jantar, não é?”, por exemplo, a história começa durante o aniversário de Tami (Myha’la Herrold), homossexual e negra, que completa 21 anos e está acompanhada dos seus pais e da sua melhor amiga. Não, não é sobre ela.

O ator Shea Whigham junto a atriz Julia Garner.

Isso não tira a complexidade da história que conta o envolvimento de Maddy (Julia Garner) com um homem muito mais velho, por quem ela desenvolve uma fantasia complexa que se mistura também, na mesma fantasia que ele também desenvolve por ela. Enquanto ela espera um pai, ele espera uma amante. E nisso a relação deles vai caminhando para um eterno desconforto.

Uma obra que deixa coadjuvantemente um incômodo para questões de representação racial e de gênero, embora, durante a abertura, coloque casais de todos os tipos e bem representados para descobrirmos, no fim, não ser nada disso.

Uma nova década batendo em nossa porta, um mundo trazendo os mais ricos questionamentos sobre a humanidade… e, vejam só, precisamos ainda conversar sobre o básico da convivência: todos precisam ter voz, não podemos deixar ninguém de fora.

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